Rótulos

Umas duas ou três semanas atrás, eu estava fuçando sites de fofoca por aí (sim, lésbicas também gostam de fofocas, igual toda mulher saudável) e me deparei com uma matéria sobre a saída do armário do Netinho (se você não sabe quem é, não importa) no Fantástico mês passado ou retrasado (não, eu não ligo minha TV há alguns meses e as flexões desse blog estão em delay).

“Ôôô, Milla. Mil e uma noites de amor com você.”

A manchete (ainda se fala manchete?):

Netinho fica irritado com sensacionalismo do Fantástico, que o tira do armário“.

Então fui ler a matéria inteira e ele até chegou a falar umas coisas muito sensatas e inteligentes (quem diria) como:

O fato de ter tido junto a mim uma pessoa do mesmo sexo não me modificou em nada como homem, como pai, como filho, como irmão e como amigo. Ao contrário, apenas me acrescentou. Me mostrou que o amor tem uma dimensão muito maior do que a que eu imaginava. (..)
Eu continuei a ser a mesma pessoa, prezando a minha masculinidade, gostando de fazer as mesmas coisas, tendo a mesma relação com o espelho, com o meu eu interior e com os outros.

Mas (sempre tem um “mas”) depois veio o parágrafo da negação:

Nunca falei em lugar algum que sou “gay” pois não gosto da conotação que esta palavra tem aqui no Brasil. E não gosto de me rotular. Em nada. Não sinto que tenho que me situar numa categoria. Hoje o meu amor, o meu desejo podem estar direcionados a uma pessoa do sexo oposto e amanhã a uma do mesmo sexo. Isso pra mim não importa desde que estas relações sejam sempre motivadas pelo amor”.

Aé? Ele não gosta de se rotular? Será que se eu perguntar para qual time ele torce ele vai me responder que “não se rotula”. Ou se eu perguntar se ele é cantor? Ou se ele é baiano?

Primeiro, o que é um rótulo?

Rótulo é toda e qualquer informação referente a um produto que esteja transcrita em sua embalagem. O Rótulo acaba por ser uma forma de comunicação visual (impressa na embalagem dos produtos), podendo conter a marca do produto e informações acerca deste.

Quando a gente se refere a rótulo para pessoas, no fundo queremos dizer classificação. E é tão humano classificar tudo o que nos cerca! É uma forma que nós usamos para entender, diferenciar, acharmos uma identidade nas coisas. Vou citar alguns exemplos:

Classificação do solo.

-Homens, mulheres.
-Bebês, crianças, jovens, adultos, idosos.
-Paulistas, Cariocas, Curitibanos.
-Metais alcalinos, metais alcalinos-terrosos, semimetais, não metais, halogênios, gases nobres…
-Leoninos, Geminianos, Aquarianos…
-Médicos, executivos, psicólogos…
-Tímidos, extrovertidos, simpáticos, alegres, tristes…

Eu poderia passar a semana inteira aqui (se eu não estivesse cheia de trabalho pra fazer) citando exemplos de como é NATURAL o homem classificar tudo e todos.  E eu não entendo por que as pessoas tem rejeição a se classificarem como homossexuais. Imaginem a seguinte cena numa classe da 4ª série:

Aluno: Profe, o leão é carnívoro?
Professora: Veja bem, aluno, não é correto rotular o leão. Ele come carne na maioria das vezes, mas nada impede que ele suba numa árvore e coma folhas. Então não podemos dizer com certeza se ele é carnívoro.

Sério, qual o problema de falar “sim, eu sou homossexual”? Ou no caso do Netinho “sim, eu sou bissexual e no momento estou com uma mulher”? As pessoas que se negam a se considerarem homo/bi estão inconscietemente falando que consideram que é errado/vergonhoso ser homo/bi.

Eu nunca vi um heterossexual falando que não gosta de se rotular se chamando de heterossexual (a não ser que a pessoa seja um asno e não saiba o que signifique a palavra – sim, acontece). Ou nunca vi um flamenguista falar “sim, eu torço para o time flamengo, mas não gosto de me rotular como flamenguista”. Sabe por quê? Porque eles não consideram esses “rótulos” como algo ruim, vergonhoso!

E não estou aqui negando que existem várias formas de sexualidade e negando a individualidade. Todas as pessoas são diferentes, mas mesmo assim estão classificadas como Homo sapiens sapiens, por exemplo.

E convenhamos que as três classificações de sexualidade cobrem mais de 99% da humanidade, não é?

Heterossexuais = gostam de pessoas do sexo oposto
Homossexuais = gostam de pessoas do mesmo sexo
Bissexuais = podem gostar tanto do mesmo sexo quanto do sexo oposto.

Pronto. Acho que essa divisão só não engloba pessoas que gostam de intersexuais. E também você não vai receber uma carta de despejo da Terra se gostar de intersexuais e não se encaixar em uma das categorias.

“Fora daqui!!!”

E se você tem dúvidas sobre sua sexualidade, lembre-se que você não é escrava do seu “rótulo”.  Hoje você pode se considerar homossexual e daqui a dois anos você perceber que na verdade é bi. Não existe imposto sobre troca de classificação de sexualidade, colega!

Então fica aqui meu apelo: haja com naturalidade! Existem pessoas que se assumem corinthianas e nem por isso sentem vergonha.

Você pode se considerar homossexual/bi!

Não é um rótulo vergonhoso é só mais uma uma forma de se descrever.

(Sim, esse post foi feito ao som de Ooooh Milla… #prontofalei)
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12 respostas para Rótulos

  1. analu disse:

    Jac.. ta ai o motivo da minha admiração por ti…
    Taquara, falou tudo!

  2. sheila disse:

    eu me assumo…corinthiana rs…centenda…q tatoo corajosa mesmo rs
    mais um belo texto jac

  3. Dora disse:

    Nossa Jac, não esperava por essa, o post ficou muito bom, mesmo, gostei! Ri bastante no exemplo do leão. Eu sabia que voce era inteligente, as vezes. Brincadeirinha! xD Beijo!

  4. carolina barbosa disse:

    O triste é q eu vi a entrevista dele, e de fato é um horror pq a jornalista fez de um tudo p dar umas alfinetadas, mas and daí né?! ele na entrevista falou q o negocio dele nao é mais a mila e sim o joão, e o mundo nao se abalou….

    tem pessoas q só enganam elas mesmas vide ricky martin….

  5. Gabi disse:

    Oii Jac,
    Primeiro, queria dizer que gostei muito do seu post, achei muito engraçado (como todos na verdade hahaha) e acho que em parte vc está certa, mas como todas as regras existem excessões.
    Com certeza o ser humano tem uma necessidade de rotular tudo e todos, e acredito que ele faça isso para se sentir mais confortável, pq uma vez que está dentro de uma “caixinha rotulada” fica mais fácil de ser aceitável na sociedade e blabla. E é lógico que a classificação faz muitas coisas parecem mais práticas, como por exemplo o leão ser carnívoro hahaha
    Mas o q eu queria dizer é que não acho que o Netinho esteja errado por não querer se rotular. Acho legal que, ao invés dele se enfiar dentro de uma caixinha rotulada, querer andar entre elas, porque talvez ele esteja levantando a bandeira da individualidade mesmo. Talvez ele não queira ser reconhecido como bissexual, hetero ou homo, mas somente como Netinho. Talvez ele não queira se definir pela orientação sexual, mas sim pela sua essência como ser humano. Ou talvez ele queira que o “rótulo” maior seja Netinho. Mas também pode não ser nada disso, vai saber!
    Enfim, acho que não querer se rotular como homo, bi ou hetero pode não ser sinônimo de vergonha, mas sim de liberdade =) Mas é apenas uma opinião haha
    Beijoos =)

    • Jac disse:

      Acho que o post resume bem o que eu penso dessa questão de rótulos (tive que reler pra resposta não ficar mto repetitiva ahahaha)

      “Acho legal que, ao invés dele se enfiar dentro de uma caixinha rotulada, querer andar entre elas, porque talvez ele esteja levantando a bandeira da individualidade mesmo.”

      Puxa, mas o que tem a ver se assumir como bi/homo com a perda da individualidade?

      “Talvez ele não queira ser reconhecido como bissexual, hetero ou homo, mas somente como Netinho. Talvez ele não queira se definir pela orientação sexual, mas sim pela sua essência como ser humano.”

      Concordo, ninguém gosta de ser reconhecida por um único rótulo (“aquele gay lá”, “aquela negra ali”, “o nerd”), mas é que cada pessoa é composta por inúmeros rótulos. Por exemplo, o Netinho já tem os rótulos de “homem”, “baiano”, “o cara que canta Ooo Mila”. E é super normal as pessoas o reconheceram por esses rótulos porque convenhamos que ninguém aqui é amigo do Netinho pra saber quem ele realmente é.

      Mas eu só não concordo com essa negação tão grande do rótulo de bi/homo. Quando uma pessoa faz um doutorado (ou direito, ou medicina), ela não pensa duas vezes antes se rotular como “doutor”. Sabe porque? Porque não é um rótulo negativo. Eu sei que de forma geral “lésbica”/”gay”/”bi” é visto como negativo pela sociedade, mas ninguém vai mudar isso se a mudança não começar na nossa própria comunidade.

      Se eu tenho vergonha de dizer que eu sou “lésbica” eu estou concordando com todos os homofóbicos dizendo indiretamente que é ser homossexual é errado, é vergonhoso e eu não quero esse rótulo para mim (igual um bandido não quer ser rotulado de “ladrão”, “presidiario”, etc).

      Mas de forma geral eu achei que o discurso do Netinho acertou em muitos mais pontos do que errou. Ele claramente deu a definição de bissexual ali e se assumiu, mas não usou a palavra em momento algum, como se tivesse medo do nome (e não da definição).

      Ele ficou irritado com o Fantástico que fez um auê com a notícia (eu nem chegay a ver a reportagem btw). Mas o sensacionalismo é até compreensível, porque são pouquíssimas pessoas conhecidas que saem do armário, dando a impressão que ser homo/bi é um fato raríssimo. Agora se todo gay/lésbica/bi do meio artístico tivesse saído do armário, ninguém ia tá nem aí pro Netinho ser bi (“ah tá, mais um bissexual, e daí?”).

      “Enfim, acho que não querer se rotular como homo, bi ou hetero pode não ser sinônimo de vergonha, mas sim de liberdade =) ”
      Discordo. Não há liberdade maior do que se aceitar como se é. Ninguém me trata como “a lésbica” porque eu me aceito como sou com naturalidade. Ser lésbica é apenas uma das minhas características (ou rótulos) e eu a trato como as minhas outras características (ser vegetariana, por exemplo): de forma natural, sem medo de falar nomes.

      Mas é apenas uma opinião também ahahahah
      Obrigada pelo cometário,
      Beijos

  6. Mary disse:

    não é politicamente correto utilizar o termo “hermafrodita” mas sim intersexual ou uma pessoa com” disturbio de desordem sexual” (DDS)

    • Jac disse:

      Ok, ok, é um “politicamente correto” até que válido. (Mas não que DISTÚRBIO de DESORDEM sexual seja lá muito mais lisonjeiro, não.)

      Editei o post =)

  7. Mari disse:

    HAUAHAUHA… concordo!
    hermafrodita é um termo pejorativo que precisa ser superado… e como eu estudo sobre isso é quase uma obrigação falar…

  8. Well,
    Disse que não ia falar mas não me aguento.

    Ainda discordo de vc sobre rótulos.

    Eu grito aos 7 ventos que sou lésbica. Porque, de fato, eu sou lésbica e faço da minha vida uma plataforma política de militância, de visibilidade.
    No entanto, já estive com homens e não excluo a possibilidade de me relacionar com um no futuro, apesar de ser casada com uma mulher agora. Nesse caso, eu seria bissexual, não?
    Tenho curiosidade por travestis e transmulheres, mas nunca tive uma relação amorosa/sexual com uma delas. O que isso faz de mim? Bi curiosa?

    Se formos pensar numa gradação, onde de um lado estão os homossexuais 100% e de outro os heterossexuais 100% e no meio existem níveis de maior ou menor atração por pessoas do mesmo sexo e pessoas do sexo oposto, eu suponho que estaria em 80% mais perto do homo. Mas ainda com alguma possibilidade de me relacionar com pessoas do gênero oposto ao meu.

    Ainda assim, sou lésbica, e não arredo um centímetro desse “rótulo” que EU escolhi pra mim.

    E acho que é aí que o negócio ta pegando.
    Fui EU que escolhi, independente de opiniões e conceitos externos.
    É a coisa da autodeclaração, assim como eu me autodeclaro negra; apesar de ter sangue italiano tb, prevalecem em mim as raízes afrodescendentes, que foram imensamente mais influentes na formação da minha personalidade e caráter e fenótipo do que o resto da contribuição genética e cultural. Mas não admito que me chamem de parda.
    E isso, no meu caso, é tb uma escolha política.

    E aí é que tá: se existem centenas de possibilidades entre uma ponta e outra dessa linha, pode dar uma ideia errada vc se referir apenas ao lado direito, ao lado esquerdo e ao meio, não? Mas entendo tb que isso é necessário para a discussão evoluir, se não vc fica pra sempre definindo e divagando e filosofando sobre a pluralidade da sexualidade humana e acaba não chegando a lugar nenhum e não tendo nem post nem blog.

    Entendo isso e acho justo. Só não acho justo comparar isso à alimentação dos leões, aos signos do zodíaco, à origem das pessoas ou às suas profissões, pq a sexualidade humana é realmente MUITO mais plural que todos esses outros assuntos juntos, e negar isso é ignorar muita gente e desprezar realidades muito específicas e ricas de nuances e particularidades.

    Enfim, vou tentar elaborar melhor esse pensamento e comento logo menos, pq acho que não fui muito clara.

  9. Sam disse:

    Achei besteira o que essa carolina barbosa disse, que ele não gosta mais da mila (atração por mulheres) e sim de joão (homens). Sendo bi, ele sempre sentirá atração por mulheres! Por isso muito temem o rotulo de bi pra não ouvirem asneiras como essa!

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