Desobediência

Amor lésbico florescendo das cinzas da morte de um membro relevante de uma comunidade judaica ortodoxa. Uma santa do pau oco. Uma crush meio lixo. E uma cena de sexo que consegue, ao mesmo tempo, ser ousada e púdica. Assim é Desobediência.

Disobedience

Gênero

Até-Que-Não-É-Tão-Underground; Até-Que-A-História-Não-É-Clichê;

Sinopse by Jac

Uma mulher volta para a comunidade judáica ortodoxa e precisa lidar com questões do passado (que obviamente envolvem lesbianidade, senão não estaríamos falando do filme no blog).

Opinião

Primeiramente vá ver o filme. Quanto menos você souber previamente sobre ele melhor.

Começamos o Disobedience acompanhando a Ronit (Rachel Weisz) recebendo a notícia da morte de quem depois descobrimos ser seu pai. Ela fica mal, precisa lidar com seus sentimentos e já temos um NO HOMO com ela transando com um homem desconhecido em banheiro de bar.

Disobedience - No Homo
Afinal, se fosse uma lésbica, não rolaria sexo no banheiro do bar assim sem pelo menos 3 dias de conversas.

Qual a necessidade disso?

Então ela volta para a comunidade judaica, encontra os dois amigos de infância e o filme desenvolve com bastante calma. Tudo é meio esperado na primeira metade. Temos a cena da rebelde alfinetando e sendo alfinetada em jantar e tendo o apoio da crush (I Can’t Think Straigth, alguém?), temos a cena da crush curiosa, temos mais 40 cenas sobre como a comunidade funciona e qual o papel da mulher nela.

Disobedience

Aliás, que cena linda.

E então o filme começa a quebrar as nossas expectativas. Bem, pelo menos a minha que já imaginava que seria mais um filme de lésbica aparecendo e convertendo a hetero ingênua e destruindo o casamento dela (Elena Undone, alguém?). Começou que nem lésbica a Ronit é – o que é bem estranho porque ela assume que nunca mais ficou com outra mulher. Digo, ela saiu da comunidade para ser livre (!) depois de se envolver com uma mulher (!!) e foi para Nova York (!!!) trabalhar como fotógrafa (!!!!) e nunca mais ficou com outra mulher? “Bi for Esti”? Achei mal contado.

E ainda descobrimos, como uma grata surpresa, que na real a Esti (Rachel McAdams) que é a safada que queria desde o começo pegar a Ronit e se aproveitou da morte do pai dela (why not?) para ter um pouco de lesbian action. Como não amar uma santinha do pau oco assim?

Eu, particularmente, prefiro mil vezes uma mulher que tenha uma fachada de boazinha/santa e que se revela em várias camadas de safadezas à uma mulher que diz que faz e acontece e depois não faz jus a expectativa criada.

Disobedience Kiss

Como a Esti estava com muitos desejos reprimidos (imagina você sem ficar com uma mulher há anos), chegamos nos melhores momentos do filme: elas se pegando. Não que sejam assim pegações realmente incríveis, faltou um pouco mais de construção de tensão sexual, mas isso não era o objetivo e o tema do filme.

Disobedience - Kiss

Dica de Ouro: Quer causar um impacto na crush? Joga ela na parede. Especialmente se você já tiver tomado uns drinks e seu equilíbrio não está dos melhores.

E vamos comentar, claro, a cena de sexo.

Eu estou só uns 3 anos atrasada para comentar sobre Azul É a Cor Mais Quente, mas senti uma forte influência deste filme em Disobedience. Parece que com o buzz que a cena de sexo de Azul criou, esse filme se sentiu mais à vontade para deixar a cena “apimentada”.

E por “apimentada” eu quero dizer: vamos conferir os pornôs lésbicos que não são feitos por lésbicas para ver como funciona o sexo lésbico.

Sério, fiquei meio chocada com a cena da cuspida (quem viu vai entender, mas tem um gif explicativo aqui). Porque 1- nunca vi isso acontecer na vida real, 2- parece muito com pornô hetero e 3- como que o fluxo pode sair tão separado da saliva assim?

Youtuber
“Eu quero saber! Como fica sua cara depois do sexo oral? Você consegue separar fluídos? Comente aqui embaixo, curta e compartilhe. Beijos e até a próxima!”

Outra bizarrice é que supostamente o sexo ali é para ser safado, sedento e cheio de vontade. Mas porque elas ficam vestidas o tempo inteiro?

Disobedience
“Acha que é fácil tirar isso tudo? Vem tentar tirar você mesma.”

Vou mesmo.

A única justificativa que imagino é uma cláusula no contrato das duas atrizes proibindo nudez. O que é meio estranho porque eu ia preferir mostrar meu corpo em um filme do que ter alguém cuspindo algo na minha boca. Choices…

Bem, uma das coisas que eu mais sinto falta em resenhas sobre filmes lésbicos é que quase nunca se comenta sobre as cenas de sexo – no máximo um “uau, foi lindo”, “uh, que sexy”. Então…

Disobedience Sex

[Voz de narradora] Incialmente temos uma posição clássica de troca de mãos. Podemos observar que este é o início do sexo, já que é uma técnica simples – praticamente uma preliminar.

Disobedience Kiss

[Voz de narradora] Aqui temos um ótimo beijo lascivo. Não é uma técnica você use fora de um contexto de clímax de sexo selvagem. Muito bom realmente! Merece um gif!

Disobedience Sex Scene

[Voz de narradora] Já nessa cena temos uma ótima posição de apoio da passiva. A posição da mão da ativa está em um nível de dificuldade alto, somente lésbicas de alto padrão podem executar essa técnica. De qualquer forma, poderia ser melhor executada se a ativa estivesse com as costas apoiadas.

Disobedience

[Voz de narradora] Para finalizar, elas fugiram um pouco da clássica conchinha e ficaram em uma posição cômada que proporciona um bom contato onde importa. Já é uma posição facilitada para a segunda rotina.

Depois das cenas de pegação e sexo, voltamos para o enredo do filme. A essa altura, o Desobediência já trocou de protagonista. A história da Ronit fica em segundo plano e agora é a vontade de ser livre pra pegar mulher da Esti que passa a importar.

E mais uma vez o filme quebra totalmente nossas expectativas. Esti quer se separar, certo? Certo. E o que se espera que Ronit faça?

Disobedience

E o que ela faz?

Disobedience

Vamos ser bem sinceras aqui. Vocês já ficaram com alguém que estava em um outro relacionamento? Uma coisa é você ficar com a pessoa. Outra coisa é você querer assumir um relacionamento com ela e ficar com os prós e contras de estar com ela.

O filme que tem coragem para fazer uma amante não querer assumir um relacionamento com a outra que quer largar o marido, tem coragem para tudo. E eu fiquei genuinamente sem saber que rumo o filme tomaria.

Em tempo, esse é o tipo de coisa que acontece no mundo real. Vide esse comentário aqui em uns posts passados.

E nesse quarto final de filme, Disobedience se perde um pouco. Fica muito vai-não-vai, mas pelo menos teve o mérito de me deixar curiosa para onde ele iria. E ele foi para o melhor final possível.

Girl
“Bem, o melhor final possível realmente seria as duas fazendo um tour de descoberta sexual no Brasil, né?”

Seria bom que as Ronit deixasse de ser crush-amante-lixo e ficasse com a Esti? Claro. Ela chega até a chamar a Esti para ir para Nova York com ela (demorou, né, miga?). Mas esse não seria um final realmente feliz.

Vamos recapitular. Você faz parte de uma comunidade judaica ortodoxa e se sente presa e infeliz em um casamento com um homem sendo que você só sente atração por mulheres. Uma vez na vida, quando adolescente, você achou outra mulher lésbica/bi na mesma comunidade e vocês ficaram. Você nunca mais ficou com outra mulher.

Sinceramente, a melhor opção de vida é você sair de um casamento (com homem) e ir para um casamento (com mulher)? Já é uma melhoria siginificativa, vamos concordar, mas como você vai saber se você ama aquela mulher ou se ela é só o caminho mais rápido na estrada da lesbianidade?

Rachel Weisz
Okay, é um caminho rápido com a cara da Rachel Weisz, mas ainda assim é limitar muito as opções.

Antes de Esti pular para outro tipo de prisão, ela precisa viver, conhecer outras mulheres gente nova, sair plenamente da comunidade religiosa em que ela está e…

Party

Experiência de vida é fundamental! Tanto para aprender, como para não se arrepender depois de não ter vivido uma fase da sua vida. Então achei  muito corajoso que Disobedience termine com Esti decidindo trilhar seu próprio caminho.

E ainda para não deixar a gente totalmente triste sem ver as duas juntas, o ship Ronit-Esti ainda não esta naufragado! Talvez elas voltem a se encontrar por aí e, se for o caso,  pelos motivos certos – e não por falta de outra opção.

Disobedience
Disobedience Story Instagram

Nota do Filme: 9
Nota do Romance Lésbico: 7
Nota da Lezploitation: 8

Post dedicado a @eta_Carinae00 por ter sugerido ele no momento certo =)


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15 respostas para “Desobediência”

  1. Achei que o blog tinha morrido de novo! Que bom te ver novamente na ativa. E, concordo, cena da cuspida foi brochante ao extremo… Mas, em geral, é um bom filme. Só faltava ter uma boa companhia para assistir…

    1. Não sei porque não colocam umas 3 lésbicas para validarem essas cenas de sexo ahahhaha E bem, a companhia um dia vem =)

      1. Sim, as companhias vem e vão! Mas sempre acompanhadas do bom e velho drama! Haha… Pq temos que ser tão dramáticas?

  2. Adorei o novo post e você ter dado sinal de vida, kk. E, Jac, você já viu o filme colombiano La Luciérnaga (The Firefly em inglês)? Lindo roteiro, lindas atrizes, lezploitation de qualidade, e tem na Netflix. Fica dica (e se assistir, faz resenha, por favor, nunca te pedi nada, kk).

    1. Pior que eu vi e já escrevi sobre ele para o próximo post =) Mas acho que não fiquei tão empolgada quanto você ahahah (faz parte)

  3. Tem algum comentário seu no site sobre os filmes:

    TOQUE DE VELUDO
    (Fiquei um pouco chocada, na verdade muito chocada).

    FALSAS APARÊNCIAS(FINGERSMITH).
    (Adorei as reviravoltas do filme).

    Ambos tem no YouTube completos e legendados.
    Tem 3h mas valeu a pena.

    Me manda o link de sua avaliação.

  4. Oi. Escrevi no post da hetero casada, dizendo q depois q me separei levei um pé. Brigamos no dia em q íamos assistir esse filme. Fui vê-lo depois e amei, como amo tantos filmes gays. Eu sou a q se separou e depois levou o fora. Nunca fui hetero, fui casada por 30 anos (mas estou muito bem! kkkk ) Me separei e fiquei sozinha. Jamais irei me arrepender: foi o q melhor fiz na vida! Só q reincidi: desbloqueei-a e voltei a pedir desculpas, rastejei, me rebaixei e nada. Cheguei ao ridículo de pedi-la em casamento. Eu q acabei de me separar. N tive resposta alguma. Hoje bloqueei de novo e espero força e amor próprio para nunca mais procurá-la. As pessoas são instáveis e perversas. Depois de 2 anos e meua jubtas, no mês q me separei( após 30 anos de um casamento com um homem e dois filhos) levei o maior banho de água fria q alguém pode levar. Não são as heteros q s ruins, as casadas ou as gays. A gente não percebe, se ilude não enxerga quando as pessoas estão te usando pra elas não sofrerem. Enfim, pensei o mesmo nesse filme: pq a fotógraa não a leva embira? Pelo simples fato que a vida não é um conto de fada. Vou assustir o filme Colombiano! Depois de uma semana de trabalho intenso, estou sozinha. Meus filhos saíram e eu sou a Dona da Minha Vida e das Minhas Escolhas. Antes eu pensava que amar e ser amada era tudo o que eu queria e precisava. Acho que preciso antes gostar de mim e parar de rastejar por afeto. Bom sábado meninas. Obrigada, Jac

    1. Força amiga…pasrinpornuma situação parecida, a menina me descartou como se eu não fosse nada e como se tudo q vivemos não tenha significado nada, ela foi mto má comigo! E eu apaixonada, to lutando pra superar esse sentimento pra não ir atrás dela! E o que está me ajudando é um autor chamado Ian do livro onde não há reciprocidade não se demore, se puder leia, me ajudou..Força, sua dor vai passar, voce se basta!

  5. Olá! Bem, sobre o sexo ter sido com elas não totalmente despidas. Eu tbm não entendi de cara o porquê, mas li um comentário num vídeo no youtube e achei muito bem observado. O post dizia que a vontade delas de estarem juntas novamente, revivendo todo aquela euforia do passado era tanta, que não havia necessidade/tempo pra ficarem totalmente nuas. É tipo ir com muita sede ao pote. Concordo até certo ponto, pq é um filme e tal e realmente fica mais bonito se vc pensar por esse lado, a sede que uma estava na outra. Mas poxa, tirar uma brusinha é coisa de segundos!

    1. Ah, até entendo bem-bem no comecinho. Mas elas ficaram o tempo todo assim. Pela vontade delas é justamente mais um motivo pra estar mais em contato sentir mais a pele uma da outra.

      Se deu tempo de trocar de posição, deu tempo de tirar a roupa hahahah

  6. A despeito da cláusula proibitiva da nudez e autorizante da cuspida, eu amei o filme, que já se tornou o meu predileto, qd o assunto é romance lésbico.
    Parabéns pela análise e texto, adoro esse blog, torna ele imortal, tá?

  7. Amando o bolg, muito boa a análise do filme. Esse romance tem um charme, uma linha, para mim bem conhecida, vcs que são mais novas não conseguem entender pq não viveram em uma época que ser lésbica era praticamente impossível, se vc não queria ser expulsa de todo convívio familiar e amigos não tinha outra opção, não tinha onde se refugiar. Imagine tudo isso ligado a religiosidade e uma religião de imposição da função da mulher (casar, procriar e servir). Eu me entendi amando uma mulher aos 14 anos, década de 80, num colégio religioso, família tradicional, nunca tinha convivido com homossexuais e sentindo as melhores sensações que uma adolescente podia sentir, com uma mulher. Para nós não existia entendimento do que era aquilo tudo, amizade, tesão, loucura sei lá…. só não podia ser amor, romance, namoro nem pensar.
    Era lindo!!!! Nos pegaram juntas e… não sabia o que era inferno de vida, mas soube direitinho… sofremos tanto, pq só depois que nos separam que entendemos que era amor do mais lindo que existe. Passamos 30 anos para termos coragem de conversarmos sobre tudo que aconteceu. Ela casou teve 2 filhos e eu só aos 31 anos me permiti saber se meu caminho era esse mesmo, tive relacionamentos héteros, mas tinha uma estratégia para nunca ficar sério a ponto de casar, namoro aberto e com amigos (boa cama e boa conversa), como sempre fui nerd escapava de certas cobranças. Não sentia vontade de aprofundar a relação amorosa, nunca senti por nenhum homem a intensidade do que vivi com ela, até que senti vontade de compartilhar minha vida e não conseguia vê-la com homem. Então me abri a possibilidades e me proporcionei reviver uma relação com outra mulher e encontrei minha loucura (amor, tesão, cumplicidade e colo) novamente. Foi perfeito tive o privilégio de encontrar o grande amor da minha vida, pela internet, estamos juntas ha 16 anos.
    Hj isso, de se retrair de viver o que se quer, parece impossível de ser vivido, mas para mim é extremamente possível no contexto apresentado. E reencontrei meu amor de adolescência faz 4 anos, conversamos rimos e trocamos vivências. Ela se separou e hj tem uma companheira de 10 anos vivendo juntas.
    Por isso falo que hj as mulheres não devem perder a oportunidade de viver seus amores, hj tudo é possível, não é fácil, mas é possível.

    1. Que relato bem relacionado com o filme! Desobediência acabou ali naquela sua fase de 31 anos quando decidiu viver como lésbica. Mas fico muito feliz que vocês duas conseguem viver como realmente querem hoje em dia!

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