Casamentos LGBTs Antes de 2019

Quem diria que a eleição de um homofóbico poderia gerar uma onda de casamentos LGBTs, ahn?

Bolsonaro

É melhor JÁ IR se casando!

[Contextualização chata que preciso fazer antes de sair criticando as coisas]

Se você cometeu o erro de acompanhar notícias nos últimos meses, já sabe que o país elegeu o Bolsonaro para piorar o que já está ruim no Brasil.

Mas, enquanto os heteros só devem sofrer com questões como empregos precarizados, violência, educação e saúde, nós, LGBTs, temos mais uma preocupação além de todas essas: nosso estado civil e como vamos esfregar ele na cara das nossas exes.

Basicamente nosso direito a casamento foi garantido por uma jurisprudência do STF que pode se tornar inválida dependendo do jogo político que ocorrer ano que vem. Chegou ao ponto da presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB recomendar pra galera se casar nesse ano ainda.

E aí várias pessoas seguiram a recomendação e estamos vivendo um boom de casamentos LGBTs no fim desse ano.

Lesbicas

“Uhul! Vamos nos casar! Estamos transbordando de alegria!”

[/Contextualização chata que preciso fazer antes de sair criticando as coisas]

Fora um ou outro casal,  qual é a reação padrão da esquerda a esse fenômeno?

Esquerda-unida

“Nossa que lindo, vamos ser resistência e celebrar o amor!”

Primeiro que de lésbica eu entendo, né? Eu fico imaginando o tanto de sapatão sub-25 casando com a namorada de 2 meses para “aproveitar o direito”. Vi inclusive instruções de modelo de união estável a distância.

Lésbica em relação a distancia

“Não precisamos conviver nem na mesma casa, nem na mesma cidade para eu saber que você é o amor da minha vida. Tenho certeza que seremos tão felizes juntas como somos trocando mensagens no whatsapp.”

Depois, em 2020, vão aparecer estatísticas dizendo que casamentos LGBTs duram menos tempo e têm taxas mais altas de divórcio.

Então meu apelo é que casem sim – com sua companheira de anos em relacionamento bem estável. E, de preferência, conversem antes sobre coisas como o regime de casamento.

Aliás, se eu deixar o meu EU conspiracionista falar mais alto…

Advogados

“Olha, faz assim… fala pro povo se casar por impulso agora. Daqui uns 2 anos, nós, advogados, vamos fazer a maior grana com processos de divórcio das sapatões iludidas.”

Segundo que me irrita essa onda de medo e pessimismo da esquerda brasileira (a ver: Eles nos querem paralisados de medo do Tese Onze). Algumas pessoas estão agindo como se, no dia 01º de janeiro, o Bolsonaro fosse assinando o plano maléfico de fim de casamento com uma mão enquanto assina o termo de posse com outra.

Calma, sapatão! Bolsonaro só estava usando LGBTs na campanha para conseguir votos dos eleitores babacas. Mas antes de acabar com o nosso direito a casamento, ele terá que acabar com os direitos trabalhistas, vender o Estado para agradar o mercado financeiro, encher os ministérios com sub-celebridades e alimentar a cortina de fumaça com fake news e decisões que depois ele desfaz.

Alivio

“Ufa! Que alívio! Teremos mais um tempinho para casar.”

Mas até aí tudo conforme o esperado. O problema é que eu comecei a ver uma falta de noção de diversos casais LGBTs que estão arrecadando dinheiro para a festa de casamento. Por arrecadando eu quero dizer pedindo dinheiro assim na cara dura mesmo por meio de vaquinhas. E usando a desculpa do “precisamos casar antes de 2019”.

Pra começo de história, o objetivo é casar para assegurar um direito que você realmente tem medo de perder, certo? Se você não tem condições de pagar as taxas do cartório, pode casar gratuitamente assinando uma declaração de hipossufiência (pobreza).

Argumentando

“Ain, mas esse é um momento importante blablabla quero que seja especial blablabla tenho direito a ter uma festa linda!”

Então pague por ela. Se você não tem condições, faça algo dentro da sua realidade. Isso talvez choque alguns, mas festa é supérfluo – não é direito seu ter bolo e bebida pros convidados. A pauta LGBT é sobre direito a casamento, não direito a festa de casamento.

Choque

“Viver dentro da realidade? Que conceito inovador e absurdo é esse?”

Não concordo que o mundo seja assim. É uma pena realmente que poucas pessoas possam realizar o sonho de ter uma festa para marcar um dia importantíssimo na sua vida. Mas meu foco aqui é “como o mundo é” e não “como o mundo deveria ser”.

E, na prática, reconhecendo o “mundo como ele é”, podemos evitar um monte de atitudes sem noção como essas que encontrei:

-Gente querendo R$5 mil para uma festa pequena;
-Gente pedindo o conjunto todo de  bolo, vestido, aliança, cantor pra música ao vivo, fotógrafo…
-Duas noivas desempregadas e preocupadas em dar uma festa e ter algo pra servir aos convidados.
-Gente que já contratou buffet de R$6 mil e agora, como buffet já contratado (!), está pedindo dinheiro para pagar. Ou seja, pessoa contrata algo antes de saber como pagar.
-Gente que mora na Europa (!) e queria uma ajuda para poder se casar lá.

Relaxada

“Calma, amigo. Até o Bolsonaro mudar as leis da Espanha vai dar tempo de você trabalhar para pagar os documentos necessários.”

Mas assim, picuinhas a parte, essas vaquinhas são um sintoma de como a esquerda está afastada da realidade das pessoas.

E eu não vejo só vaquinhas pedindo festas de casamento. Vejo também gente usando movimentos sociais como argumento para poder fazer intercâmbio internacional. E recentemente tivemos um youtuber famoso que usou um movimento social para justificar um conserto no valor de R$3600,00 da tela de Macbook.

A verdade é que a pauta identitária tomou conta de esquerda e agora não olhamos mais para como é a vida da maioria das pessoas. Senão a gente veria que não é porque alguém é hetero que automaticamente nasce com uma verba para festa de casamento.

Fernanda Gentil Priscila Montandon

Não é só porque seu instagram vive abarrotado de fotos de festa de casamento que todo mundo se casa com direito à festa não. Pense que até a Fernanda Gentil, que é a Fernanda Gentil, se casou em segredo só com a família presente.

(Aliás, pausa no textão para a fofoca lésbica: sim, a Fernanda Gentil se casou em segredo e quem revelou isso foi a Ivete Sangalo (!) que foi convidada para a lua de mel o casamento. Isso é como uma pequena lembrança dos tempos saudosos das fofocas de a Ivete ser sapatão… Ai ai… Mas tá, volta para o textão…)

Não se trata de que só gente com muito dinheiro pode ter boas experiências e bons materiais. Mas sobre sacrificar a imagem dos movimentos sociais e suas pautas perante a população para conseguir isso.

Começamos a usar lutas legítimas para alavancar demandas pessoais.

Veja bem, quando você pede dinheiro para uma festa (friso bem: uma festa) e usa como justificativa para as pessoas te darem esse dinheiro o fato de um direito seu estar sob ameaça, você está usando a causa LGBT para resolver um problema financeiro seu.

E fica feio quando as pessoas de movimentos sociais não estão pedindo para ter os mesmos direitos, mas conseguir o que a média da população não tem.

Reclamação

“Ain, que caga-regra. Eu peço o que eu quiser e doa quem quiser – isso não tem nada a ver com você.”

Ah, tem sim, querida. Porque é a soma dessas atitudes sem noção que são usadas para incentivar o ódio e o ressentimento do brasileiro médio pelos movimentos sociais. Porque o brasileiro médio não tem acesso a intercâmbio internacional, Macbook e festa de casamento.

E, quando existe essa percepção popular de que os movimentos sociais não tem noção de realidade e bom senso, que tipo de coisa acontece?

Bolsonaro

E para não fechar esse post em um tom amargo e para ser justa, também vi vários exemplos muito bacanas de solidariedade entre LGBTs que há anos não via. Exemplos em que a causa LGBT não é usada para conseguir easy-money para gastar um absurdo em festas individuais, mas para formar uma rede de apoio de ajuda mútua e de solidariedade.

Ajuda mútua? Solidariedade? União de um grupo por uma causa? Isso me lembra algo…

Propaganda Comunista

Zueiras comunistas à parte, até igrejas evangélicas quando não estão ocupadas na fiscalização da vida sexual alheia ajudam heteros pobres a realizarem o sonho de ter uma festa de casamento. E nós, LGBTs, temos mais é que formar essas rede de apoio como, por exemplo, esse grupo do facebook aqui que ajuda a organizar uma planilha serviços oferecidos.

Outros bons exemplos:

-Uma lésbica cabeleireira e maquiadora oferece seus serviços e as pessoas, em troca, podem ser garçons e garçonetes no casamento dela.
-Empréstimo de vestido branco e decoração pra festa.
-Gente que não pode pagar por uma festa perguntando se alguém pode fazer bem casado de lembrança pros convidados com um desconto bacana (veja, ela não tá pedindo de graça, nem está indo acima das possibilidades financeiras dela).
-Gente oferecendo serviço de fotografia de graça.
-Gente vendendo alguma coisa com a intenção de pagar pelo casamento e anunciando no grupo.
-Trocando informações sobre cartórios.

Exemplos que me fazem crer que realmente o período de crise e backlash que iremos enfrentar servirá como uma peneira de valores na esquerda.

Vaquinhas sem noção pedindo dinheiro? Sashay away.

Ajuda mútua e solidariedade? Shantay, you stay.

E…

RuPaul - Don't Fuck It Up

 

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5 respostas para Casamentos LGBTs Antes de 2019

  1. Letícia disse:

    Eu amo esse blog mds

  2. Renata disse:

    Concordo em grande parte com teu ponto de vista, mas acho que você não se aprofundou na história do Spartakus direito. Não achei válido colocar na mesma realidade que essa galera ae. O cara é super humilde e produz um conteúdo de que é de pequena aceitação pq ele coloca o dedo na ferida. Fica muito complicado ele ter patrocinadores e sobreviver disso. O dinheiro foi apenas pra continuar entregando o trabalho dele nas mesmas condições de sempre e ele ainda fez doação do que arrecadou a mais. Acho justo super honesto ele pedir a grana e receber doações do pessoal que consome o trabalho dele. Não é como se ele pedisse toda hora pra qualquer problema que aparece e tb não foi por futilidade. Infelizmente, o melhor equipamento de produção é mesmo o da maçã.

    • Manuela disse:

      Eu já ia escrever sobre isso, mas vi o seu comentário. Concordo com o que foi dito.
      O texto até estava indo bem. Porém, a crítica sobre o Spartakus foi fora do contexto.

    • Jac disse:

      Então… Não aprofundei na questão do spartakus de propósito para não fugir muito do assunto do post (casamentos LGBTs). Mas em resumo meus pontos sobre o caso (e a relação deles com o post):

      -Ele não pediu simplesmente pelo conserto da tela do macbook dele. Muitos youtubers pedem mesmo vaquinhas no estilo “se você gosta do meu trabalho, me ajude a comprar X” ou usando patreon. O grande problema do pedido dele é que ele misturou a luta contra o racismo com a necessidade supérflua dele. Como se ELE ter acesso a um MacBook fosse uma vitória pra os negros. Igual algumas pessoas misturando o direito ao casamento com a FESTA de casamento.

      -Ele basicamente sem noção de realidade alguma disse que não queria ficar atrás dos brancos em termos tecnologicos. Sim, a maioria que tem um MacBook é branca. Mas te garanto que nem 3% dos brancos tem condições de ter um notebook daqueles. Da mesma forma imagine eu pedindo dinheiro pra casar no Copacabana Palace e ainda ter a cara de pau de justificar que, pelo fato de a maioria que casa lá ser hetero, eu ter uma festa luxuosa é uma vitória pros LGBTs.

      -Ele não precisa de um notebook desse para fazer as edições básicas que ele faz nos vídeos. Só o preço da tela (3600) já compraria um baaaita de um computador novo que faria essas edições iguais – só perderia a marca Apple que é um status no Brasil. Ele não PRECISA do melhor equipamento. Ele QUER o melhor.

      – Sim, o que ele arrecadou a mais doou para uma instituição bacana. Mas veja só a prioridade como ficou: PRIMEIRO o conserto do meu item de luxo e de marcar, DEPOIS O QUE SOBRAR para uma causa nobre. Isso pra mim já é um indício que a coisa não está muito certa.

      -Ele diz que não consegue patrocinadores no YouTube e até imagino que seja difícil mesmo. Mas no mesmo vídeo ele diz que a viagem dele pra Europa (!) foi uma “permuta”. Permuta pelo quê? Quem pagou?

      -E quando eu penso em negros + tecnologia um bom exemplo é o InfoPreta que arrecada notebooks usados e repassa para pessoas negras que não podem ter um (tipo gente fazendo facul e precisando de um note). Olha a diferença pra situação da vaquinha do Spartakus.

      Bem, é isso. Espero ter deixado claro porque coloquei o caso do Spartakus no post. Mas mesmo que não te faça mudar de opinião sobre isso, obrigada por te discordado com educação =)

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